30 out 2010
 Por 
Blog do Seridó
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14:29min. 
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Artigo do Correio Braziliense comenta morte do jornalista de F. Gomes

Sangue no Seridó – Por Carlos Marcelo

Em 18 de outubro, Francisco Gomes de Medeiros fez o que sempre fazia depois da janta: foi para frente de casa e pôs a cadeira na calçada. Tomava uma brisa para amainar o forte calor. Foi quando passou uma motocicleta. O motoqueiro parou, desceu e atirou cinco vezes contra Francisco, que morreu ao chegar ao hospital.

A execução não ocorreu no Rio, São Paulo, Belo Horizonte ou Recife. O crime aconteceu em Caicó, no interior do Rio Grande do Norte. Uma cidade conhecida pela fabricação de bonés e pela excelência dos queijos e da carne de sol.  Mas que, nos últimos anos, passou a ser assombrada pela invasão do crack. E que se sentiu mortalmente atingida por conta da execução de um dos mais combativos jornalistas da região do Seridó.

Apresentador do programa Comando Geral e diretor de jornalismo da Rádio Caicó, F. Gomes denunciava sistematicamente a ação do crime organizado na região. “Ele era muito incisivo, especialmente em relação ao tráfico de drogas. Dizia que não iria parar, porque era o que gostava de fazer e não se conformava com o que vinha acontecendo na cidade”, lembra a diretora da rádio, Suerda Medeiros.

O autor dos disparos está preso e se vangloriou do crime; disse que sua popularidade vai subir entre os bandidos por conta do feito. O mandante da execução, porém, ainda não está identificado. Enquanto os presidenciáveis se digladiam no horário político e nos debates, a violência se alastra e se aloja em regiões antes conhecidas pelo clima de tranqüilidade. Pior: sem repercussão nacional (até a diretora-geral da UNESCO se pronunciou, mas o silêncio prevaleceu no país), crimes emblemáticos de tempos sombrios — como já foram as execuções de Mário Eugênio e de Tim Lopes — não recebem a atenção devida das autoridades constituídas, como a Polícia Federal.

E cidades como Caicó passam a viver sob o manto da perplexidade, do medo e, por fim, do desamparo. Sob o sol abrasador, pequenos e grandes municípios do interior nordestino estão mergulhando nas trevas trazidas pelos traficantes. Com isso, a barbárie mostra a sua cara de forma desavergonhada, ostensiva, tingindo de sangue os cidadãos.

O Brasil precisa enxergar o Brasil. Antes que seja tarde demais.

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